segunda-feira, 19 de setembro de 2016

CULPA, RUPTURAS E REDENÇÃO


Olá queridos,

Faz tempo, não é mesmo? Acho que “teias de aranha” já dominam as páginas do Ortopraxia. Por diversas razões parei de escrever. Na verdade, tenho um monte de desculpas para não compartilhar meu pensar acerca da prática cristã, mas elas apenas servem para esconder uma fuga desesperada daquilo para que Deus me chamou.  Deixa eu tentar falar um pouco sobre isso.

Nos últimos anos tudo se transformou em minha vida, passei por um verdadeiro “tsunami”, uma onda maldita (ou não) das mais diversas e complexas transformações. Tem sido um tempo difícil. Um período de aprendizado, de descoberta, de decepções e reencontros. Enfim, muita coisa mudou.

Durante algum tempo culpei meus “algozes”, lancei sobre eles a grande responsabilidade por todo mal que me causaram e aos que amo. Os tive como responsáveis pelas maiores rupturas que passei. Até que me voltei para o interior de minha alma e como Jeremias em suas lamentações (Lm 3), reconheci que nesse tempo todo, o maior inimigo, maior algoz, maior vilipendiador de tudo aquilo que Deus havia me concedido era eu mesmo. SIM! EU SOU O GRANDE CULPADO.

Nalgum momento de minha história eu fraquejei, desisti, deixei que os pesos, as mazelas, as dores, os dissabores da caminhada afetassem o que tinha de mais precioso. Eu perdi o que mais amava e quem mais me amou. Decepcionei àqueles que jamais poderia decepcionar, deixei de assistir, de cuidar, de proteger os que deveriam ser os primeiros. Mais que isso, fui responsável por suas dores, fui causador das suas lágrimas. Pequei por negligenciar minha maior missão de pastor, cuidar do rebanho de casa. Sofri perdas irreparáveis, sofri rupturas indizíveis cujas fendas jamais fecharão e por toda vida chorarei as dores causadas por mim mesmo. SIM! EU SOU O GRANDE CULPADO.

Vivi os piores dias de minha vida, chorei, lamentei, desejei a morte e Deus sabe, busquei por ela.  Nesses dias lembrei das vozes que elogiavam, das cabeças que meneavam em sinal de aprovação quando expunha a Palavra. A memória fazia ecoar nos ouvidos as declarações de amor pastoral, os mimos e pensava: Quanta hipocrisia. O corpo ainda sentia os “tapinhas” nas costas após os cultos. Onde estavam eles? Para onde haviam ido os meus grandes amigos?  Chorava! Apenas chorava!

Hoje não mais careço de culpar os outros. Cada um deve ser consciente das suas mazelas e deve queixar-se o homem de suas próprias faltas. Queixo-me das minhas, pois elas são renitentes em meu coração. Aqueles que também foram agentes do que é MAU que se vejam com Deus acerca dos males que causaram. Isso já não é comigo e o que era de mim já não é.

Foi nesse tempo de dor que aprendi a deleitar-me mais que nunca nas águas tranquilas, conduzido pelo Pastor que em nada me faltou. Achei o refrigério da graça e da bondade daquele que esteve comigo “no vale” mais tenebroso e que não me abandonou quando toda bondade, toda gratidão, toda amizade e lealdade dos que um dia me ofereceram a destra da comunhão, me faltaram. Foi nesse tempo de dor que os “rios da graça” inundaram minha alma através de homens e mulheres que o Pastor Supremo pôs em meu caminho.

VOLTANDO AS RUPTURAS...

Das rupturas causadas, das separações, das interrupções foi resultante uma fuga da vocação. Vi-me cada dia menos indigno e incapaz de ser pastor do rebanho de Cristo. E ainda olho e digo: NÃO SOU CAPAZ! Não sou mereço, não posso, não vou. E quanto mais digo isso, mais sou conduzido a perceber que devo ir, que devo cuidar, que devo amar e que não haverá satisfação em minha alma se não cumprir aquilo para o qual ELE me comissionou. Não tem jeito, sou pastor, amo gente, amo vidas e alimentar o Rebanho d’Ele é uma tarefa da qual não há como fugir.

Nesse tempo minhas convicções acerca de Deus e de seu amor em nada mudaram. Na verdade, pude experimentar na prática o cuidado e a preservação do Senhor da graça sobre minha vida. Sua bondade e misericórdia se evidenciaram ainda mais em meio às dores mais intensas que minha alma viveu.

O que se asseverou ainda mais foi minha total aversão pela religiosidade, por essa doença vil e aprisionadora do igrejismo, pelos seus agentes, pelos aproveitadores da fé. Hoje mais que nunca, odeio essa religiosidade perniciosa que transforma prédios em santuários e homens em deuses. Abomino do mais íntimo do meu ser esse sistema religioso que condiciona o derramar da bênção de Deus a atos obedientemente zumbídicos e controlados pelas mãos dos “reis da fé”.

Meu coração ainda mais tem ojeriza a essa “ingreja” que apresenta um deus “sabor de mel”, um  velho medíocre e “vingancista” pronto a destruir num piscar de olhos os inimigos que os “apóstolos” de plantão elegeram para a “ingreja". Minha alma repudia veementemente essa religião que impõe pesos, agruras e cruzes que Cristo não impôs.

...UM RECOMEÇO

Esse texto é mais que uma confissão de culpa, é mais que um lamento pelos que deveriam ter sido, mas não foram. Ele marca o desejo sincero de recomeçar, de refazer, de estar nos caminhos do Redentor e ser meio pelo qual os amados de Deus encontrarão a Palavra da Redenção.

Não irei mais fugir...reaprenderei, me refarei, consertarei o consertável e voltarei a fazer o que mais me deu satisfação até hoje, cuidarei do rebanho que tem Pastor.

Não busco mais os títulos, os cargos, os poderes, os tapinhas, os louvores. Não almejo honrarias, lugares, banquetes da fé, aplausos.

Careço apenas de uma Bíblia, já tenho! O povo? O Pastor proporcionará o encontro. Quero apenas ser instrumento do REDENTOR.

É hora de uma caminhada suave conduzido pelos CAMINHOS DA REDENÇÃO.

Crer. Viver. Compartilhar!

           
Caco Pereira

            

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