sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

ESCOLAS TEOLÓGICAS E SEUS ZUMBIS


Há muitos dias não escrevo minhas “cartas”. Hoje voltarei a fazer isso. Escreverei a um ex-aluno (ex-aluno na “vera”, como dizemos lá em  Patos) que receberá o nome fictício de Mark. Então vamos lá.

Olá meu mano Mark?!
Na paz?
Cara, espero que vocês estejam bem por aí. Aqui estamos na paz e com a paz.
Sabe mano, as vezes fico meio saudoso das nossas aulas no Seminário, quando discutíamos sobre que tipo de igrejas temos plantado, acerca realidade do evangelho na Paraíba e no Brasil. E é inevitável pensar naqueles momentos maravilhosos e não lembrar que em meio as polêmicas, discussões, embates, brincadeiras, sorrisos sempre ficava nítida uma realidade nua, crua e dolorosa: AS ESCOLAS DE TEOLOGIA A CADA DIA MAIS TEM FORMADO ZUMBIS.
Mark, era triste ver pessoas inteligentes, que amam ao Senhor, que desejam servi-lo com inteireza e integridade de ser, sendo levadas de forma tão asquerosa por um caminho que apenas as conduz a uma religiosidade sem vida. Rapazes e moças que tem tudo para alavancar  a Igreja com uma teologia bíblica fiel e avassaladora são transformados em meros denominacionalistas, tragados pelo sistema opressor de igrejas que apenas querem “Gado” e que os transformam em “boieiros”.
Refletir? Nunca! Obedecer? Sempre. Esse é o lema. A ideia central é que a igreja não precisa de homens e mulheres comprometidos com uma reflexão séria, sadia e sincera da teologia. O importante é preservar o nome da “denominação”. Dessa forma não são formados pastores e missionários, mas zumbis denominacionais que parecem repetir insistentemente que é importante tornar sua igreja (denominação) conhecida, alargar as tendas (da sua denominação) e impactar a nação com o poder do evangelho. Mas que evangelho?
Fico pensando se era essa a ideia de Calvino e dos demais pilares do protestantismo. Era isso mesmo que Paulo, Samuel, e o próprio Senhor queriam dos seus discípulos? Eles buscavam papagaios que apenas repetem frases prontas? Ansiavam por lagartixas que balançam a cabeça sempre no mesmo sentido? Escolas teológicas existem para promover o estabelecimento de padrões doutrinários denominacionais ou para serem casas de instrumentalização de homens e mulheres que com o uso correto das ferramentas serão capazes de promover reflexões sérias, sinceras e comprometidas com a Palavra de Deus?
Mark é entristecedor ler nas redes sociais as opiniões medíocres dos zumbis da teologia. Não há reflexão, contextualização, não existe conhecimento... Os pensamentos são sempre tão consistentes quanto um prato de macarrão instantâneo, tão firmes quanto castelos na areia do mar, tão duradouros quanto a moda da hora. Não há erudição! Não existe a busca pelo saber. Pensamentos limitados se travestem de uma linguagem pseudo piedosa. Fica a impressão que erudição e piedade são cruelmente distintas e com isso, são inimigas declaradas.
Calvino, John Owen, Lutero, Spurgeon, Martin Lloyd Jones, John Piper e tantos outros servos de Deus (sem contar Paulo, Isaías, Salomão, Samuel...) depõem claramente contra essa visão nojenta de que boa teologia, profundidade e erudição são inimigas da piedade. Profundidade teológica e vida piedosa são irmãs gêmeas.
Tenho certeza que há escolas que querem cabeças pensantes, mentes que instigadas, atiçadas pelo desejo fiel de ir mais profundo no texto bíblico, sendo capazes de buscar ser o mais fielmente possível a intenção autorial e aplicando de maneira mais coerente o texto à vida dos leitores. Tenho o prazer de ter como companheiros no ortopraxia dois colegas professores e um aluno de uma dessas instituições.
Sabe mano Mark, o grande desafios das nossas escolas de Teologia é encarnar de forma muito evidente duas verdades: 1) Precisam ser lugares de gente piedosa mesmo, pessoas inteiramente comprometidas com o desejo de viver o  princípio de Romanos 12.1,2 em todo tempo. 2) Precisam serem vistas como lugar de debate, reflexão, embates teológicos, confronto de ideia.  E digo isso sem o menor medo do que falo. Escola teológica é o lugar onde todas as heresias devem ser expostas, combatidas e abatidas. Não é o espaço onde todos concordam com tudo facialmente.  Escola de teologia não é lugar de total harmonia.
Permita-me citar o exemplo do ortopraxia. Eu sou presbiteriano conservador (há quem diga que sou liberal – deve ser porque sou meio aloprado – eita, vou escandalizar mais alguém), sou reformado, calvinista, pedobatista, aspercionista e amilenista e cada dia mais amigo do pensamento cessacionista (embora não me veja no direito de fechar questão quanto a isso). O pastor Joelson Gomes e o professor Temístocles Mendes, colegas no STEC (Seminário Teológico Congregacional) e aqui no blog são congregacionais, também reformados, não pedobatistas, com pensamentos diferentes dos meus acerca de vários assuntos. Já discutimos sobre alguns desses temas; não fechamos e não fecharemos questão. Os nossos alunos não são obrigados a “engolir no seco” os conceitos meus ou deles. Ao contrário, são levados a refletir, a discutir, a discordar a buscar a coerência com o texto bíblico.  SÃO INSTIGADOS A REFLETIR E NÃO A MERAMENTE REPETIR!
Olha Mark os zumbis teológicos conseguem carregar consigo toda uma mazela que a cada dia se perpetua nas igrejas evangélicas. Eles tornam-se insensíveis ao erro, não são capazes de identificar falsos profetas, músicas com letras heréticas. Tornam-se idólatras e defendem com unhas e dentes seus “heróis” de uma fé sem Bíblia. Quer experimentar? Chegue em algumas escolas teológica e abra a boca contra Malafalha ou contra o Distante do Trono, ou mesmo contra o “Mais Cedo”. Você será apedrejado, chamado de radical, de intolerante.
Claro que ainda acredito que é possível acreditar em boa teologia nesse país. Disse que ensino hoje numa instituição que preza por isso. Creio que há diversas outras casas teológicas que de fato formam mentes pensantes e não meros papagaios. Sei também que em meio a tantos Zumbis existem aqueles que mesmo estando em escolas medíocres, não foram tragados pelo sistema. E é por vocês que oro diariamente e peço ao Bom Deus que lhes preserve livres das “mordidas vorazes dos Zumbis da religiosidade”.
Que o Deus da Bíblia nos cuide!
Um abraço do seu amigo de luta (Jd 3,4).


Pr. Caco Pereira



7 comentários:

JOELSON GOMES disse...

Muito bom, vamos usar em nosso Seminário

Julyanne Rezende disse...

Legal o texto ...
Um assunto antigo, digamos que seja o espinho na carne de muitos uhauhauhauahua ...
Falar em instituições teológicas, muita gente se ofende, e tentam defendê-las com unhas e dentes.
É engraçado como há tanta força e disponibilidade pra "comprar brigas" defender aquilo que acredita, por ex : de fato a minha instituição é a melhor, sou calvinista, reformado e etc e tal ( realmente vou pro céu ), não não não mas a de fulano é pentecostal mete fogo que não presta ( vai diretinho para o inferno) o ser humano não consegue conviver com idéias diferentes, opiniões diversas, são egoístas, preferem viver rodeados de pessoas que aparentemente concorda com aquilo que pensam , ao invés de amar aquele que é diferente .
Quando vejo a história de Jesus, Ele convivia com pessoas totalmente diferente dele e olhe não apontava o dedo na cara e os obrigavam a aceitar tudo que ele queria como muitos fazem hoje em dia.
Desde que o mundo é mundo inúmeras pessoas seguem aquilo que aos seus olhos acham que seja o certo, muitos nunca buscaram e atualmente não buscam seguir a vontade de Deus, se enchem de ídolos e vivem uma vidinha medíocre ...
Sinceramente não estou aqui pra puxar saco de instituição não, até por que não faz muito meu gênero e detesto hipocrisia...
Desejo de coração que possamos a cada dia prosseguir em conhecer o Senhor, sim o SENHOR, não viver apenas para adquirir conhecimentos teológicos que muitas vezes só nos serve para perder tempo em discussões sem edificação, criar contendas e divisões.
Sou seminarista e clamo a Deus para que o Senhor me fortaleça em seus caminhos, que não permita que eu caia em doutrinas humanas falhas e demoníacas ... Senhor nos livre do mal e nos sustente nessa caminhada que árdua, mas com peso de glória.

"A minha alma está desejosa, e desfalece pelos átrios do SENHOR; o meu coração e a minha carne clamam pelo Deus vivo. " Salmos 84:2

Abraço meu amigo e Pr. Caco :D

Givaldo Lima disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
felipe disse...

Olá Mark, a paz meu brother!!
estive lendo a carta que você recebeu a algund dias atrás e me deixou muito feliz em saber que existem seminaristas que não se contentam com a teologia do papagaio!Eu leria essa esta carta para meus colegas de seminario, incentivando-os à reflexão e a busca intensa pela comunhão com o proprio Deus, unindo, exatamente como deve ser feito, unindo um posionamento consistente seja la qual for, e uma vida que exatlte a glória de Jesus!! afinal de contas "Teologia é a unica ciencia que se aprende de joelhos"Pr. ricardo em uma aula de IB. abração caro mark, precisando estamos ai!!

André Bronzeado disse...

Pr. Ricardo, excelente texto. De fato temos vivido em uma lógica de pouca reflexão, enquanto que vemos uma obediência vazia a líderes que acham que liderança cristã é dar ordens nos outros.Na maioria das igrejas homens e mulheres comprometidos com uma reflexão séria, sadia e sincera da teologia, enfim, as melhores mentes são ofuscadas, preteridas, sufocadas por um esquema eclesiástico nojento e sujo. O denominacionalismo exacerbado e vazio que visa apenas tornar a denominação conhecida, enquanto que o evangelho passa longe. Absurdo. Muito bom o texto, vou ficando por aqui, pois estou cansado de algumas coisas...

Caline disse...

Texto muitíssimo bom! Espero que as boas escolas de teologia permitam que seus seminaristas pensem. Não apenas as escolas, mas os próprios professores (às vezes eles "cortam a palavra" de quem faz perguntas).

Ana Lívia disse...

PREGUIÇA... essa é a nossa pior inimiga quando estamos estudando. Preguiça de ler, de analisar, de criticar... DE PENSAR. O texto é ótimo e muito estimulante e, sem dúvida é para aqueles que desejam não ser mais um produto, mais uma mente condicionada, mais uma "maria vai com as outras".