quarta-feira, 1 de junho de 2016

AVE MARIA

Em março de 2011 escrevi esse texto. Hoje dando uma passada aqui no Ortopraxia, entendi que era tempo de falar sobre esse assunto mais uma vez... 

Desejo que algumas reflexões sejam promovidas pela leitura tranquila dessa breve pastoral.

Um grande abraço



Outro dia na mesa de um restaurante ouvi a seguinte pergunta: Ricardo (na verdade fui chamado por um apelido carinhoso. Apelido esse que somente essa tia e sua filha podem usar. rsrsrs – censurado) o que vocês (protestantes) pensam sobre Maria?

Sabe quando alguém faz uma pergunta e você agradece a Deus pelo privilégio de poder respondê-la? Então, foi assim que me senti naquele momento. Alguns dias antes eu havia comentado com que escreveria sobre esse assunto. Tinha agora a oportunidade de “testar” meu texto e isso enquanto degustava um bom churrasco em companhia de pessoas que amo.

Disse exatamente o que penso. Nada mais do que a Bíblia diz sobre essa serva abençoada do Senhor. Maria foi sem dúvida alguma uma jovem (adolescente) muito dependente do Deus de sua vida. Demonstrou confiança, humildade, mansidão e submissão. Por tudo isso, é sim um dos maiores ícones da fé cristã.  

O anjo vai ao seu encontro e em uma frase que já diz muito, mas muito mesmo sobre quem é essa moça: Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo! (Lucas 1.28). Nossa que afirmação magnífica! Imagine-se no lugar dessa garota de aproximadamente 16 a 20 anos. Ela acabara de ouvir que deveria alegrar-se, pois era cheia do favor não merecido de Deus e que Ele mesmo era com ela. A menina judia mal sabia que a graça do Senhor sobre sua vida a faria meio pelo qual o Salvador, o Rei dos reis tornar-se-ia homem (Lucas 1.30).

A menina teve medo, mas logo recebeu do anjo palavras que certamente começaram a encher seu coração de paz.  Ela seria instrumento pelo qual o Filho do Altíssimo, o herdeiro do trono de Davi tomaria forma humana (Lucas 1.31,32). Mas o que é fantástico ao ler sobre o encontro do anjo com Maria é o relato de sua resposta: “Eis aqui a escrava do Senhor. Aconteça comigo segundo tua palavra”. (Lucas 1.38). Que dependência, disponibilidade! A jovem estava colocando em risco todos os seus sonhos ao lado de José – afinal de contas como explicar a gravidez quando ainda não “conhecia” homem algum? Como dizer para seu futuro marido, que não o traiu, mas que carregava no ventre uma criança? - O QUE VOCÊ FARIA NO LUGAR DELA?

Pois bem, penso de Maria exatamente o que Bíblia me diz sobre ela.  E sinceramente, vejo duas “marias” sendo propagadas por aí e ambas não refletem a humilde serva do Senhor. A primeira é vista, aclamada e venerada como co-Redentora, uma espécie de quarta pessoa da divindade. Tem poderes de intercessora, pode fazer milagres, é tão ou em alguns momentos, mais importante que o próprio Filho. Essa Maria em nada se compara a jovem humilde, escrava, dependente da graça. Ela é sofisticada, pomposa, tem vários dias de comemoração especial. É adorada (venerada como alguns dizem – significa a mesma coisa) em diversos santuários, tem músicas especiais e ainda tem direito a frases que a colocam em papel imprescindível para a fé cristã. Você nunca leu TUDO COM JESUS. NADA SEM MARIA?

Pois bem, essa não pode ser a Maria da Escritura. Não é a moça que cantou: “Minha alma engrandece o SENHOR e rejubila meu espírito em DEUS, MEU SALVADOR, porque olhou para a humildade de suaSERVA. Eis que desde agora me chamarão FELIZ todas as gerações, porque grandes coisas fez em mim o PODEROSO cujo nome é SANTO. Sua misericórdia passa de geração em geração para os que o temem.” (Lucas 1. 46-50).

A Maria da Bíblia jamais quereria ser adorada, pois é uma adoradora. Em momento algum requereria o título de RAINHA, pois se submeteu ao privilégio de ser ESCRAVA DA GRAÇA sob a mão do PODEROSO. Essa FELIZ serva do Senhor não precisa ser tida como virgem eternamente para ter meu respeito e até gratidão. A Escritura registra que ela teve a BÊNÇÃO DE SER MÃE DE OUTROS FILHOS ALÉM DE JESUS (por favor, leia na sua Bíblia o evangelho de Marcos 6. 1-3). A Jovem mãe do Jesus não foi concebida sem pecado (apenas Jesus foi – se houvesse nascido sem pecado seria uma deusa e a Bíblia não a trata como tal). Ela também não teve seu corpo elevado ao céu (a Bíblia não diz a forma como ela morreu, mas se houvesse tido tão importante destino certamente haveria registro).

Há uma segunda “Maria” bastante difundida. Uma mulher sem virtudes, sem respeito, sem reconhecimento. Essa é “maria” dos evangélicos. Ela surge como uma espécie de resposta à primeira. REPOSTA MUITO MAL DADA, DIGA-SE DE PASSAGEM. 
Deixar de reconhecer quem foi o essa mulher extraordinária é não é ser fiel a Bíblia.  Os “crentes” são especialistas em exaltar servas fantásticas como Sara, Rebeca, Raabe e tantas outras. Isso é muito bom. Mas Maria, a moça dependente do Senhor é posta de lado. E não vejo dentre servas e servos de Deus, ninguém que como Maria, tenha evidenciado de forma tão prática o que é submissão ao Senhor.

Maria era sim uma mulher simples, falível, pecadora. Mas foi sim fundamental na execução dos planos de Deus para a vida daqueles que seriam salvos por meio de Cristo. O Senhor Deus quis dá a esta humilde serva o privilégio de ser instrumento nas mãos d´Ele para execução dos Seus planos. Assim é que deve ser vista, como um exemplo de cristianismo prático. Mas não como uma “deusa” nem, como uma qualquer, sem papel no Reino de Deus.

Quero muito ser pai de uma menina. E quando minha pequena nascer quero ensinar-lhe a viver olhando os grandes nomes da fé e aprendendo deles. Maria a menina corajosa e humilde de Israel é sem dúvida o maior exemplo de serva de Deus que um pai pode querer ensinar para sua filha.

Enfim, rejeito as duas “marias”, mas deleito-me pelo privilégio de ser irmão pelos laços da Cruz da verdadeira Maria, a Maria da Bíblia a Maria que exalta ao que tem que ser exaltado.

Que o Deus de Maria nos cuide!

Um abraço carinhoso,
Caco,
um irmão de Maria




PS.: Todos os textos bíblicos citados foram retirados da Bíblia Sagrada co-edição VOZES E SANTUÁRIO (Versão Católica).     


quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

ADORAR EM MEIO A DOR




Por esses dias recebi uma notícia muito ruim, algo que me foi dado pelo Senhor Deus, me foi tirado. Não pretendo discutir sob hipótese alguma. Com relação a isso, vivo momentos de intensa paz e comunhão diante do Senhor, mesmo em meio a imensa dor que tal perda me tem causado.

Essa paz é fruto de alguns entendimentos à luz da Palavra d’Ele. É resultante da decisão de ADORAR EM MEIO A DOR. O livro de Jó muito tem contribuído para essa firme decisão. Por isso, quero compartilhar com vocês um pouco do que tenho aprendido com as experiências de um homem conhecido por sua paciência, integridade, retidão e fé. Mas que foi meramente religioso e pecador. Que se viu arrasado ao constatar que a tal “meritocracia”, que a sua justiça pessoal, que suas virtudes de fé, de integridade e tudo mais em qual pudesse estar fiado, não existem diante de Deus.

Venha comigo, vamos perceber em Jó que é possível ADORAR EM MEIO A DOR.

Antes de mencionar a experiência de ADORAR EM MEIO A DOR, deixem-me dizer uma coisa simples: Satanás só agiu contra Jó porque DEUS MANDOU! Deus é o Senhor de tudo, inclusive do Diabo, que nada mais é que um “cachorro seguro sob a mão do Poderoso Dono”. Essa ação limitada promoveu em Jó a maior experiência que um homem pode ter, o encontro consigo mesmo e com o Senhor de sua vida. Essa convicção é sem dúvida base para adoração e paz meio às mais cruéis dores.

Agora, dê uma olhada no verso 21 do capítulo 1. Jó recebera as mais avassaladoras notícias que alguém poderia ouvir. Perdera tudo o que tinha, inclusive os filhos, maior herança de um homem.

Ele então bradou que não aceitava aquela situação? Determinou a vitória imediata? Buscou restituição? Não. Jó adorou em meio a dor! Vejamos três aspectos fundamentais da adoração no início do "calvário" de Jó.

     1. Ele começou pelo reconhecimento de sua pequenez – 21a

A condição de se humilhar diante de Deus como fator fundamental à adoração é vista em toda a Escritura. Veja os casos da Parábola do Fariseu e do Publicano (Lucas 18), nos profetas que não se consideram dignos de estar diante do Senhor (Veja por exemplo Isaías 6). No verso 20 Jó humilha-se em uma dor indizível, rasga suas vestes, raspa a cabeça e adora.

Essa adoração é marcada pelo reconhecimento de que jamais foi dono de nada. Que nasceu nu, pobre, sem bens, filhos, honras, poderes. Apenas nu.

Ninguém pode aproximar-se como adorador sem antes reconhecer que não tem nada que seja seu. Essa visão gerará antes de mais nada, a sincera gratidão por qualquer coisa que Deus dê. Promoverá no coração a conformação em meio as maiores dores e aflições, em momentos de perdas. Afinal de contas, como perder aquilo que de fato nunca foi nosso?

Bens não são nossos.  Filhos não nos pertencem. Honras, dons, poderes, aplausos, reconhecimento. Nada é nosso!

2. Ele reconheceu o Senhor como Doador de tudo – 21b

Jó diz que o senhor deu. O Senhor tomou. Sim, ele é o Dono. Tudo lhe pertence e não há nada, absolutamente nada que não esteja sob seu poder, domínio e direção. Deus não é um velho louco que, cansado da lida, largou tudo nas mãos dos homens e correu para tirar férias do mundo.

Ele é o Senhor absoluto de todas as coisas. Governante Soberano de tudo. O Salmo 93 é a perfeita declaração dessa soberania. Reina o Senhor. Revestiu-se de Majestade! (Glória a Deus!!). No Salmo 24 as portas se abrem para que entre o Rei da Glória. Ele é o Senhor forte e poderoso. 

Jó compreendeu que esse Deus era o Dono de tudo, de seus bens, de suas honras, reconhecimentos e de seus filhos. Sim, os bens pelos quais trabalhou, a honra que “conquistou” durante muitos anos de vida, os filhos a quem criara com amor e ensinando a temer e adorar ao Senhor, nunca pertenceram a Jó e ele compreendera isso de forma imensamente dolorosa.

Reconhecer Deus como doador de tudo o que temos gerará a mais completa convicção de que Ele é na verdade, o dono do que temos e somos. Isso impedirá que sejamos insubmissos, rebeldes, revoltados conta a vontade do Dono. Promoverá em nossos corações a sublime e amorosa submissão ante o Trono do Soberano.

3. Ele bendisse o nome do Senhor – 21c

Reconhecer a sua condição de “senhor do nada” e a de Deus como “Soberano sobre tudo” fez com que o humilhado, consternado, dilacerado Jó, pudesse bendizer ao Deus de sua vida em meio a dor.

O texto santo diz que ele bendisse ao Senhor. Uma canção pentecostal diz que Jó falou para todo inferno escutar. Não. O adorador não tem interesse em que mais ninguém saiba de sua adoração, exceto O ADORADO. Deus, apenas Deus é o foco, o objeto, o centro da adoração e Jó adorou. Obviamente a adoração promoverá proclamação, mas o adorador tem interesse fundamental no Senhor, em agradá-lo, em reconhece-lo.

Mesmo com as perdas, com as dores e lamento, havia um motivo para bendizer e Jó, apesar de ainda não ter tido um “ápice” nessa relação com Deus (depois chegaremos lá), pôde prostrar-se como adorador.

Reconhecer quem somos e que nada temos, promoverá reconhecimento de quem Ele é, o que tem e o que nos deu. Quando isso acontece somos levados a nos humilhar em constante gratidão e submissão diante d’Ele. Adoração sem esses elementos é apenas aparência.

      Em meios às dores que vivo nos últimos dias decidi que não vou atribuir a mais ninguém, exceto ao Senhor os sofrimentos de agora. Sim, Ele deu e tomou!

            Decidi que não vou fazer nada além de me humilhar ante o Trono da Graça.

            Reconheço que não tenho nada.

            Reconheço que tudo é d’Ele.

            Então bendirei ao Senhor!

    Minhas firmes convicções e a imprescindível dependência de sua bondade e misericórdia levam-me a submeter-me a Sua vontade Soberana, convicto de quem em tudo Ele coopera para meu bem (Romanos 8.28).
       
        Tenho a plena convicção de que assim como Jó, no tempo oportuno me alegrarei com o que o Senhor tem preparado e sei que o regresso será em paz, refrigério e tranquilidade, sob a condução do Supremo Pastor.
           
          Por fim:  Paz para adorar. Paz em adorar!






Caco Pereira
Crer. Viver. Compartilhar! 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

OLHANDO MUITO MAIS ALÉM




Escrevi esse texto há um tempo atrás. Resolvi publicá-lo novamente, com algumas leves alterações. Ele representa meu grande desejo para sua vida. Que Deus nos cuide e nos dê um ano de paz e com os olhos capazes de enxergar muito mais.  



Nada me deixa mais maravilhado e sensibilizado do que a contemplação da obra criada pelo Senhor observada calmamente. Por isso, o texto de hoje é uma tentativa de levá-los a contemplar uma das mais belas e fascinantes obras da criação, o MAR (talvez a que melhor expresse a grandeza do Criador). Porém, desejo que o façam vendo-o como uma imensa parábola acerca da ESPERANÇA (parece confuso, mas pode ser encantador...). Faça-me um favor imenso ao ler esse texto: por gentileza imagine o cenário descrito, faça-se personagem, contemple e “devocionalize”.

Era mais um dia comum, Ele ia levá-la ao trabalho como de costume. Mas resolveram parar um pouco e contemplar o mar. Foram ao mirante, ficaram observando um barco bem distante, ouvindo o ruído das grandes águas. Passaram então a conversar sobre a grandeza do mar, o ruído das águas e um dos dois falou sobre o que vem depois do horizonte. Daí a conversa mudou de perspectiva, falaram não mais do mar, mas do Deus que o criou, não mais do horizonte simplesmente geográfico, mas da incapacidade humana de enxergar apenas até onde os olhos podem ver. Então ele disse: - Olhar depois do horizonte é enxergar as bênçãos além do alcance da visão humana limitada – Seus olhos estavam marejados. Eles agora podiam contemplar a grandeza da Esperança que lhes dava prazer em viver.

Essa breve parábola mostra muito da nossa realidade. Nalguns momentos paramos e olhamos o “MAR”, enxergamos nada mais do que está ao alcance dos olhos. Somos temporais, circunstanciais, existenciais. De certa forma, somos social e eclesiasticamente preparados para o agora, para o que é palpável já. Quando pensamos em bênçãos, vislumbramos coisas, acontecimentos, milagres, curas e tudo mais que possa alimentar-nos agora, que preencham os nossos vazios no momento, que satisfaçam nossa miserável esperança no JÁ (1Co15.19). Mas essa é a perspectiva bíblica? Quando olhamos a cosmovisão celestial somos convocados a ser tão transitórios?

A Carta do Espírito Santo aos Hebreus ao comentar a esperança dos heróis da fé (Hebreus 10-12), mostra-nos que sua imensa dignidade, da qual o mundo não era digno dava-se pela ESPERANÇA que tinham. Eles não almejavam a Canaã transitória, não punham suas esperanças naquilo que é perecível. Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, Davi e todos os que morreram em Cristo foram ensinados pelo Senhor a viver sob a perspectiva daquilo que está além do alcance dos olhos. Eles aprenderam a olhar aquela cidade cujo arquiteto e fundador é o próprio Deus.

Sabe querido, assim como o casal da nossa parábola, muitas vezes sentamos e vemos barcos, ondas bravias, alguns tsunamis, vemos até onde os olhos deixam, mas não somos capazes de perceber pela fé que além, muito além dos que os olhos alcançam há um futuro imensamente glorioso, eterno, cheio de paz e vida abundante para aqueles que são capazes de olhar para o Autor Consumador de nossa fé. E o nosso imenso desafio como servos do Senhor Deus é ser capazes de não fixar os olhos no que é passageiro, no perecível. Somos convocados a manter nosso foco na Pátria que nos aguarda e não naquilo que irá passar.

Já vivi algumas dores e vi pessoas sentido dores. Uma delas chorava a perda de um filho, um moço de 35 anos, servo do Senhor. Seu pai olhou e disse: - Pastor, meu filho se acabou. O que dizer nessa hora? Apenas dei-lhe um abraço e disse: Meu irmão, nós dois sabemos que a nossa esperança não perece e por isso temos consolo, ELE ESTÁ BEM. Ele então respondeu: Isso é o que diminui minha dor! 

Olhar além do horizonte traz paz em meio as maiores dores meus queridos. Enxergar aquilo que os olhos não alcançam deve ser um maravilhoso combustível na vida dos que amam o Senhor.

O apóstolo Paulo foi alguém que aprendeu a viver na perspectiva de quem enxerga muito mais além. Por isso podia dizer que morrer é lucro (Fp 1.21). Exatamente por ser dessa forma, preocupou-se em fazer com que os crentes de Tessalônica fossem capazes de viver com o coração cheio da imperecível esperança (1Ts.13-18) e fossem por ela consolados. Então ele lhes escreveu dizendo que não deveriam ser como aqueles que não tem esperança, ao contrário, suas vidas seriam plenas de alegria se fossem cheios da certeza de que ressoada a trombeta, ouvida a voz do arcanjo, os mortos em Cristo ressuscitariam e os vivos seriam transformados para que pudessem reinar com o Senhor eternamente. 

Meus queridos, isso está além daquilo que podemos compreender, está muito distante da nossa perspectiva! Nossa mente limitada não consegue assimilar intelectualmente isso. Crer é ver além dos olhos e essa é uma certeza pela qual devemos viver todos os nossos dias.

Espero que você ainda esteja sentado comigo contemplando o mar. Olhe novamente as ondas, elas parecem imensas, veja o tsunami destruidor, perceba que pode haver tubarões... O mar é imenso, mas é tão pequeno, o horizonte é distante, mas é logo ali... O imenso mar é tão diminuto perante a face do CRIADOR... O horizonte reserva algumas surpresas, mas aquele HORIZONTE guarda as mais maravilhosas, imperecíveis e eternas alegrias para os que são capazes de manter-se em todo tempo com os olhos fitos no Autor e Consumador de nossa fé. Sendo assim, pare um pouco de ver as dores, as angústias, as tristezas da vida. Pare de aguardar em homens, não ponha mais sua esperança em qualquer coisa que não seja o Reino do Majestoso. Enxergue além do horizonte, veja aquilo que pelo sangue da NOVA ALIANÇA Ele reservou para todos aqueles por quem se deu na cruz! Viva de hoje em diante com a perspectiva de quem é capaz de enxergar além...

Olhar além do horizonte fará com que o ano seja realmente novo, o recomeço aconteça, o sonho seja perseguido, o alvo seja mirado, a amizade seja refeita, o amor reconstruído, o ministério restaurado, enfim, olhar além do horizonte porá nossos olhos no Autor e Consumador da nossa fé.



Deus nos cuide e nos faça ENXERGAR!



Caco Pereira
tentando olhar mais longe


terça-feira, 22 de dezembro de 2015

JESUS, Fabíola, Leandro e nossa pobre sociedade pseudo conservadora






Faz um tempinho né? Há dias não escrevo aqui no ORTOPRAXIA, mas aos poucos tenho sentido vontade de colocar por aqui um pouco desse meu pensamento meio louco, mas que é fruto de um olhar desafiado a ser humanista e cristocêntrico.

Recentemente vivemos um frisson total por causa de um caso de adultério que “bombou” nas redes sociais. Era a história de dois jovens que traíram seus esposos em um verdadeiro quarteto amoroso. Ah! Havia um outro “amigo” na história, um “cinegrafista” que tinha um ar de promotor, daqueles bem cruéis, um verdadeiro acusador. Isso me lembra alguém que adora acusar.

De algum modo, todos nós brincamos com a história. Rimos, compartilhamos charges, vídeos, músicas, memes, enfim, fizemos o que o pecado acaba tornando inerente aos pecadores que somos, zombamos da desgraça alheia. Mas nem percebemos que, em grande parte das nossas brincadeiras, o cara que traia a amizade do outro e o próprio casamento, em tempo algum era tido como “safado”. Apenas a moça era achincalhada. Era um tal de joga a pedra na Fabíola, joga a pedra na Fabíola, ela é boa para apanhar, ela é boa pra cuspir! Maldita Fabíola (parafraseando aquele que deveria cantar e compor ao invés de fazer política... rsrs - Grande Chico).

Não quero e não vou sob hipótese alguma, fazer defesa de ninguém aqui. Esse papel é do Cristo que se deu naquela cruz horrível.  Nem serei o acusador de quem quer seja; esse é papel do “promotor implacável” que se parece com um certo “cinegrafista”.

Desejo na verdade, lembrar de como somos pseudo-conservadores, hipócritas e dissimulados. Agimos com um cristianismo capenga, reduzido a padrões de cultos, outros ritos e determinações dogmáticas e administrativas. Somos defensores da religião do mérito, do faça isso e Deus vai amar você. Do, não toque nisso ou naquilo, pois trará maldição.

Acima de tudo, somos seletivos no que diz respeito ao pecado. Escolhemos níveis, e mais que isso, somos machistas e preconceituosos na hora de apontar o dedo acusador e miserável. 
O caso “Fabíola” é a perfeita ilustração dessa nossa podre situação de religiosidade sem graça e apartada do amor de Deus. A moça é ridicularizada, tem a vida devastada. E os demais envolvidos? Por que não se menciona o amigo que trai àquele que o tinha como "o melhor"? Por que o marido que quebra a confiança da esposa não é citado com tanta veemência? Ou o amigo que fica parecendo um pregador neopentecostal apontando juízo, por que não se menciona que ele deveria estar ali agindo como apaziguador e não como acusador? Por que? PELO SIMPLES FATOS DE QUE SOMOS HIPÓCRITAS! O homem que trai segue sua natureza, seu instinto e é “perdoável”. A mulher que trai é a pior das mulheres e deve ser execrada.

Mas o que Jesus faria nessa situação? Será que o Deus a quem dizemos festejar nesse mês agiria como nós? Não é que “Fabíola”, "Leandro", "aquele moço acusador" e todos nós, de algum modo já estivemos nessa situação há alguns milhares de anos?

O evangelho de João (Leia João 8.1ss) diz que uma mulher também saiu para “fazer as unhas”. Foi descoberta, humilhada, posta em praça pública e estava prestes a ser condenada, mas o “amante” nem é citado. Interessante né? Levaram-na para que Jesus dissesse o que fazer com ela. Obviamente havia outras motivações com relação a ao Filho de Deus nessa história (mas não pretendo explicar isso agora).

O mestre ao ouvir as acusações, o juízo, os gritos e acima de tudo, a condenação exigida, “parece concordar com a pena”. Ele diz: “Ei, façamos assim: Quem não tem pecado atire a primeira pedra”. É como se dissesse que é justa sua condenação. Sim, o adultério, como qualquer outro pecado é digno de morte. Então, quem for puro, santo, irrepreensível, intocável pode atirar a primeira pedra.

Aos poucos, todos foram saindo bem devagar, desde o mais velho até o mais jovem. Então “Fabíola” ficou sozinha com o único que poderia atirar todas as pedras. Ele mansamente disse: Ei, ninguém te condenou? Nem eu farei isso, vai lá, segue sua vida e olhe, não repita isso.
Uma canção para ilustrar o perdão. É apenas isso.

No final das contas, Jesus era não apenas o único com o poder de condenar, ELE É O MARIDO TRAÍDO. Sim, pecar é trair a Deus nessa relação que temos com Ele, e, somente Ele, o marido traído, pode condenar. Ele tem o poder de execrar nossa condição pecaminosa. E o Pai fez isso em Cristo. Em Jesus, naquela cruz tenebrosa todos os pecados de todos aqueles pelos quais o Filho do Homem morreu foram execrados, achincalhados e condenados. Sim, Cristo sofreu o inferno da Cruz para que ninguém atirasse mais “pedras” e bradasse condenação. Nenhuma condenação pode haver para quem está em Cristo. Leia Romanos 8 e a alegria do perdão inundará seu coração.

Jesus não condenou, perdoou, falou sobre transformação, sobre mudança de vida. A nossa sociedade prefere tratar como irremediável, imutável. Somos injustos, implacáveis e insensíveis.

Agimos como se fossemos supra santos, impecáveis, toda vida justos e retos. Mas nada mais somos, que sepulcros vazios, túmulos caiados. Escondemos dentro de nós as piores mazelas, os pecados vis, as mentiras, os escândalos e tudo aquilo que nos torna "Fabíolas" ou que evidência os "Leandros" que temos em nós. Vivemos um falso conservadorismo que nos torna juízes dos outros, insensíveis a imensa necessidade de buscar santificação. E ainda vamos aos cultos e missas, e dizemos que amamos o próximo. MENTIRA! AMAMOS NOSSO EU e apenas isso.

Quantas e quantas “Fabíolas” temos em nossas igrejas e na sociedade de modo geral? Quantas pessoas são aprisionadas pela nossa incapacidade de imitar ao que chamamos de Senhor?

Jesus em seu evangelho nos desafia a amar do modo que Ele amou, e seu amor entende-se de forma simples pelo fato de que Ele sendo o justo juiz, resolveu agir como o compassivo e amoroso advogado que defende-nos do pecado, do Diabo, de nós mesmos e da condenação que merecemos.

Todos nós somos Fabíola e Leandro, todos nós somos adúlteros na relação com Deus e todos, absolutamente todos que se humilham diante d’Ele, ouvirão de forma simples: Vocês estão perdoados. Sigam em frente, e não voltem a fazer isso.

Que o Deus dos pecadores nos santifique!





Caco Pereira
tentando ser cristão






domingo, 6 de setembro de 2015

Reafirmando os delírios

           



         Há pouco mais de dois anos, escrevi alguns “delírios”, frutos de minhas reflexões acerca do ministério pastoral. Essa madrugada andei lendo o texto mais uma vez e resolvi reafirmar cada delírio de negação e de afirmação.

            Espero que minhas negações e afirmações possam de algum modo trazer reflexão e edificação para sua vida.

            Tenho pensado bastante nos últimos dias acerca do pastorado cristão. Vivo dias de inquietação, reflexão, avaliação. Por vezes me pego questionado e questionando-me sobre mim mesmo enquanto pastor do rebanho.

Tais pensamentos derivam inicialmente daquilo que ouço das pessoas sobre mim e sobre outros pastores. Minhas reflexões estão inteiramente ligadas aquilo que a “Igreja” ou as pessoas dentro ou em redor dela, esperam de um pastor; mas também são resultado das minhas próprias inquietações, frustrações, medos, seguranças e inseguranças enquanto cristão.

Quero aqui expor alguns “DELÍRIOS DE UM JOVEM PASTOR” sobre o que, em minha opinião, define o que É UM PASTOR nos moldes da Escritura. Antes precisarei dizer o que não é um pastor. Por fim direi o fim dos meus delírios. Então vamos a eles?

                DELÍRIOS DA NEGAÇÃO
1. Nego veementemente que um pastor deva ser definido por um padrão ridicularizado de “roupas”. A igreja tem afirmado, ainda que de forma velada que pastor é medido por sua elegância, pelo paletó, pela discrição do que veste;

2. Nego gritantemente que pastor é um ser bitolado que vive de “igreja”. As pessoas nos tratam diversas vezes como homens especiais, como seres alheios a realidade. As vezes alguns de nós acabam por gostar disso ou se travestem de santarrões. Isso é um péssimo caminho para pastores e para própria Igreja de Deus;

3. Nego sem pestanejar, as afirmativas que nos colocam como cidadãos de primeira linha, como mais íntimos de Deus, os senhores absolutos da santidade;

4. Nego enfaticamente que sejamos duas mazelas antagônicas: a primeira coloca os pastores como empregados da Igreja, como alguém que é pago e por isso deve atender as demandas de trabalho. A segunda nos vê como senhores do rebanho, como donos da Igreja. Ambas são duas faces da mesma moeda da perniciosa maldade;

5.  Nego loucamente a absurda e vil mentira de que pastor é um gerente de igreja;

6. Nego quase que chorando a mentira deslavada de que todo pastor é ladrão;

7. Nego com todas as minhas forças o papel de animador de auditório.

8. Nego que pastor é um fiscalizador da vida dos cristãos;

9. Por fim quero negar ainda que o pastor é uma espécie “porta estandarte” denominacional, um defensor de bandeiras eclesiásticas. Pastorado não tem nada com política eclesiástica ou com querela denominacional.

DELÍRIOS DA AFIRMAÇÃO

Postos os meus “negos” quero dizer os meus “afirmos”. Pretendo falar aquilo que entendo biblicamente ser um pastor:


1. Afirmo ser o pastor um pecador miserável, incapaz de crer sem a ação transformadora do Espírito Santo de Deus (Romanos 3.10, Efésios 2.1-10, etc);

2.   Afirmo ser o pastor um pecador que embora redimido, continua sendo imperfeito, frágil, miserável e carente da graça e bondade de Deus(Romanos 7);

3. Afirmo que o pastor é um ser humano normal (ou não), frágil, limitado, com vontades, preferências...

4.   Afirmo que o pastor é alguém que chora, sorrir, ama, sente raiva, se magoa, tem carências, necessidades, medos, angustias... (Veja as cartas de Paulo e perceberá um pastor com todas as fragilidades de um ser humano qualquer)

5.    Afirmo que o pastor é alguém que vive e deve viver a realidade presente, tendo o direito de gostar de coisas, práticas, costumes e ambientes que alguns podem não gostar. Isso é um direito de todos;

6. Afirmo que o pastor enquanto ministro de Deus é um livre escravo do Senhor servindo à Sua Igreja, não por uma compensação material, mas pelo chamado de Deus. Dizer isso não nega o direito ao sustento por parte da Igreja, apenas esclarece que a motivação não é material (1Pedro 5.1-4, 1Coríntios 9.13,14, 1Timóteo 5.17,17);

7. Afirmo que o pastor é boca de Deus. Quando seu pastor prega a Bíblia fielmente, Deus está falando. E se você rejeita essa voz, não é o pastor que está sendo negado, mas o PASTOR (Jeremias 1.4-10, Veja as cartas Pastorais de Paulo)

8. Afirmo que pastor é um defensor da verdade do Evangelho e que enquanto boca de Deus, deve pregar todo desígnio de Deus, doa a quem doer (Atos 20, Romanos 7 e os profetas);

9. Afirmo que o pastor é alguém que AMA, e só quem é pastor sabe do amor que falo. Não tenho medo de dizer que pastores conseguem chegar perto de imaginar o que é ser mãe. Amamos quando não somos amados, oramos quando não nos querem orando, choramos por quem nos fez chorar, sorrimos quando entristecidos (Galátas 4.19)

10.   Afirmo que ser pastor é supra denominacional, é mais que uma honra, é mais que um privilégio, ser pastor transcende denominações. Isso tem a ver com vida, com vocação, com ordem de Deus.

11.  Afirmo que ser pastor é ser amigo (veja o amor de Paulo e sua amizade com o rebanho, veja o amor do Supremo Pastor).

CONCLUSÕES DE UM DELÍRIO

A cada dia, em meus delírios próprios dos loucos (já disse o louco Paulo que a palavra da cruz é loucura “1Corintios 1.18-25” – então, que eu seja louco) percebo que a igreja quer pastores a gosto do freguês. Quer pastores que se enquadrem no seu sistema, no seu perfil, nos seu modus vivendi... E cada igreja local quer tem um querer diferente.

Perceber isso me faz chegar a triste conclusão de que  aqueles que de fato querem ser pastores estão a cada dia mais ameaçados de sofrer com a rejeição de comunidades que querem os “pastores a gosto do freguês”. Pessoalmente não temo por isso. Não me assusta a perda do “status eclesiástico”, a falsa honra dos títulos, das cabeças meneando positivamente, das tapinhas nas costas, da glória denominacional. Não temo, pois tenho a convicção simples e firme de que um dia o Deus que me conheceu antes da fundação do mundo, me consagrou para o ministério (Efésios 1, Jeremias 1.4-10) e que o rebanho d’Ele transcende portas, paredes, muros, títulos e que onde houver rebanho haverá necessidade de pastor. Deus me fez pastor do rebanho DELE!

Por isso posso tranquilamente bradar que: Não serei um animador de auditório que diz palavras bonitinhas para agradar uma gente que a cada dia se distancia mais de Deus.  Não dominarei o rebanho ou serei um inquisidor de uns para agradar a outros.

Não tratarei a Igreja como uma empresa ou como um circo. Não vestirei a roupa de super-herói da Gospelândia pondo-me como paladino da justiça e solucionador de todas as causas.

Jamais me postarei com essa santarrice vil do meio evangélico. Jamais negarei minha podridão moral, minha pecaminosidade. Em nenhum momento me porei como alguém perfeito. Lutarei contra o que sou, mas nunca o negarei.

Não serei movido pelo meu próprio ego ou pelos desejos de pessoas que embora estejam, não são Igreja.  Não quero isso pra mim. Não serei feliz assim! Quero amar gente, cuidar de gente, buscar, pregar, brincar, abraçar, exortar.  Quero poder ir em busca das ovelhas do Senhor. Isso é o que me faz feliz.

Quero ser aquilo que Deus me quis fazer.

Sou um ninguém chamado pra cuidar de outros "ninguéns"!

                              



Caco,  
um pastor